sábado, 9 de outubro de 2010

...cortar o sono...

Os falatórios continuaram à sua volta e as piadas trocistas tambem, até já lhe chamavam o "afia-lapis" embora nunca o tivessem visto a afiar nenhum lápis com a preciosa faca.
Certo dia em que afiava mais uma vez a lamina com todo o cuidado, passando-a pela lixa fina ora dum lado ora do outro em gestos firmes e constantes, começou a falar sobre a faca sem que ninguem lhe pedisse nada, falava como se fosse só para ele, uma especie de monólogo, quase um fundo musical para a dança da lamina.
-Não entendem..., nunca poderão entender..., porque é que esta faca deve estar sempre bem afiada, não vêem..., como poderiam ver... ela corta no invisivel... ela corta o sono da tarde, aquele que sempre me atormenta depois do almoço, corta o sono às fatias fininhas e os sonhos nascentes também para que o vento os leve para longe... não, não entendem... mas é melhor assim...
-Pera aí, tu estás a dizer que cortas o sono às fatias?
-Sim corto, mas vocês não o podem ver
-Mas nunca te vi cortar nada... nem fazer o gesto de cortar... pões essa coisa no bolso e pronto
-São mistérios que não consegues ver nem alcançar
-Sabes uma coisa? Tu és completamente maluco! e riu-se alto em grandes gargalhadas.
Durante uns dias foi motivo de chacota de toda a vizinhança
Ah!!Ah!Ah!, cortar o sono ás fatias!!! Ah!Ah!Ah!
Ele não se impressionou com a troça, dia após dia continuou a manter o ritual de afiar a faca.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Era uma vez


Era uma vez num reino distante uma vez que tinha perdido a vez da ultima vez que a vez fora.
-Desta vez não vou deixar passar a vez diz a vez para consigo uma e outra vez, é que se perco outra vez a vez perco-a de vez.
Mas quando foi a vez, a vez já era.

Tradição

A tradição já não é o que era, as tradições tambem já não são o que eram. Muitas, diga-se de passagem, nunca foram até porque nestas coisas é bastante facil uma pessoa enganar-se, umas vezes cai o d, outras foi o d mesmo acrescentado para iludir o pessoal.
Já agora, que vem a talhe de foice, já que a tradição foi-se, quanto tempo é preciso pra fazer uma tradição? Isto parece-me um bocado como os fosseis, têm todos milhões de anos, menos dum milhão não serão fosseis?
As tradições tem que ter muitos anos ao que parece, mas quantos? mil, cem, dez, cinco, três, dois, um? Largadaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
No meio do trovejar e da fumarada acabo de lançar uma tradição pró espaço que estava livre aqui mesmo...

Escritores de gaita rija

Pois sim, escritores de gaita rija, é que neste caso trata se de escrever com esperma fresco a servir de tinta. Factos históricos.
Pormenores aqui

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O inventor de anedotas

Ele gostava muito de anedotas, a bem dizer era mesmo viciado em anedotas, consumias em quantidades apreciáveis, sabia muitas, contava algumas nem mal nem bem dava para entreter os amigos quanto baste. Mas acontece que as anedotas começaram a escassear, já não circulam por aí como andavam dantes, toda a gente contava a sua laracha, "já sabes a ultima?", "contaram-me agora ali uma do caneco". Já não se ouve nada disso, raramente aparecem piadas novas, já não voam, já não andam por aí.
Perante esta situação, vendo-se na eminência de morrer de tédio e tristeza, após longo estudo e profunda merditação, ele resolveu pôr as mãos à obra e começou a inventar as suas próprias anedotas. Umas mais toscas outras mais subtis, mais ridiculas ou mais profundas, lá foi conseguindo animar os seus dias e dar umas gargalhadas genuinamente regeneradoras.
Passou então a inventar as piadas, para de seguida se as contar e depois ria-se à bandeira despregada. Era frequente vê-lo desatar a rir desalmadamente sem razão nenhuma aparente, até houve muita boa gente que começou a interrogar-se sobre a sua saúde mental. Os amigos que já sabiam da história riam-se, esperavam alguns segundos, um minuto ou mais por vezes, que ele se acalmasse e contasse a anedota e riam-se outra vez.
Ele foi assim apurando a tecnica fazendo piadas cada vez com mais graça, mais humor, mais refinadas e sempre da mesma maneira, construía-as com todo o cuidado levando no processo todo o tempo necessário, depois contava-as a si próprio e ria alto e bom som.
Certo dia, enquanto atravessava em passo decidido a praça, ele contou-se toda esta história, contou-se a si próprio como se fosse uma anedota, achou que era tão risível, de morrer a rir mesmo, parou no meio da praça, riu, riu riu sem parar e caiu morto.
Ainda hoje paira entre os amigos como um fantasma, é com um misto de inveja e de temor que todos se interrogam sobre o mistério da ultima anedota... aquela de morrer a rir.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Mémètica em movimento





Estas fotos foram tiradas em locais diferentes, em dias diferentes, mas em todas é visivel uma ligação especial entre os gatos e as esfregonas. Pelos vistos passou a ser moda esta parceria, só não dá para entender se são os gatos que se fazem às esfregonas ou se são estas que se põem num dolce fare niente nestas poses invulgares e provocantes para engatarem os gatos. Talvez uma contaminação mémètica de duplo sentido. Assunto a seguir

Esfinge da esfregona


Pois é os gatos e as esfregonas continuam num caso escaldante até parece uma contaminação tipo mémètica.

Nada

Aqui não acontece nada, nada de notável, logo ninguem toma nota, ninguém regista o nada que aqui não acontece.
O que não é registado não existe, nunca existiu, nunca existirá.
Quando se escrever a história do aqui, se alguma vez alguém tentar escrever tal documento, só poderá registar, relatar, contar, historiar coisa nenhuma, sim friso bem, nem uma. Alias nem o aqui tem registo, é o nada que acontece que faz os "aqui", os "agora" e os "sempre", o nada que não acontece não faz mesmo nada. Não faz história.

Se aqui acontecesse nada, nada disto acontecia

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Luis ene

Luis Ene, para alem de escrever e agitar as hostes escritoras tambem sopra as velas.


Conversa curta

Conversa de passagem apanhada na rua, podia ser noutro sitio qualquer? Poder podia mas não era a mesma coisa.
É uma conversa curta, pois é, no entanto tem tanto...


...a mãe? pai

Chouriço

Conversa de passagem apanhada na rua, uma mulher jovem ao telemovel e mais duas ouvindo a conversa.

...e ela não consegue?... coitada... mas é a sogra do chouricinho não é?...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Leãozinho


As inglesas á descoberta do leãozinho

Money

Conversa de passagem apanhada na rua dum casal de ingleses já entradotes

...have you got enough money left to pay the check in?...

...assim que as batatas

Conversa de passagem apanhada da mesa da esplanada dum café

...assim que as batatas estiverem boas salta-lhes em cima, põe-as no saco que o senhor está aqui aflitissimo...

domingo, 3 de outubro de 2010

Esfinge


O esfinge da esfregona

O esfinge na sua intemporal pose guarda a intemporal esfregona na sua improvável pose

Foto: Luis Nunes Alberto

Poesia no estado brutal


É mesmo assim, a força poetica da imagem apanha-me com um impacto brutal



Foto: Luis Nunes Alberto

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Afonso Dias

Afonso Dias lendo poetas e cantando na biblioteca Lidia Jorge em Albufeira no dia 30 de Setembro 2010.
Neste video a ler Guerra Junqueiro


Conversas de passagem

Os passantes vão rua abaixo, vão rua acima, sós, a dois, a três ou em pequenos grupos, eu vejo-os passar, observo distraído, admiro as figuras, os portes, as poses, as curvas, os movimentos ondulantes, as birras de pequenos e grandes e apanho conversas de passagem:

Ao telemovel

- ...nem é uma rotunda... aquilo não é nada... nem um pneu tem no meio do cruzamento, tem lá um poste, um pau... não é uma rotunda...